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"Sempre recusou o quotidiano de morrer"

"Se há coisa que o Vasco Graça Moura detestaria , seriam lamúrias pela sua morte. Como poeta conhecia a morte bem melhor do que nós, mas sempre recusou o quotidiano de morrer."

Realidade

Que pena não ser eu um dos primeiros homens a inventar as palavras, para criar a verdade! Encontrei-as já todas feitas umas doces, outras amargas, estas rudes, aquelas imperfeitas, acasos de som - mar de espuma de gaivotas e vagas. Com este cheiro tão bom a realidade. José Gomes Ferreira A poesia continua: velhas e novas circunstâncias (Moraes, 1981), o poema IV (pescado no De Rerum Natura)

Perfilados de medo I

"Alexandre O’Neill era poeta e as suas palavras fizeram a autópsia de um país de governantes medíocres e pessoas cujo silêncio cobarde sustentava qualquer ditadura. “Ah o medo vai ter tudo. Tudo (penso que o medo vai ter tudo e tenho medo que é justamente o que o medo quer). O medo vai ter tudo, que se tudo e cada um por seu caminho havemos todos de chegar quase todos a ratos. Sim, a ratos”, escreveu." http://www.ionline.pt/opiniao/perfilados-medo

Perfilados de medo II

Perfilados de medo, agradecemos o medo que nos salva da loucura. Decisão e coragem valem menos E a vida sem viver é mais segura. Aventureiros já sem aventura, perfilados de medo combatemos irónicos fantasmas à procura do que não fomos, do que não seremos. Perfilados de medo, sem mais voz, o coração nos dentes oprimido, os loucos, os fantasmas somos nós. Rebanho pelo medo perseguido, já vivemos tão juntos e tão sós que da vida perdemos o sentido... Alexandre O'Neil

Todas as Cartas de Amor são Ridículas

Álvaro de Campos Todas as Cartas de Amor são Ridículas Todas as cartas de amor são Ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas. Também escrevi em meu tempo cartas de amor, Como as outras, Ridículas. As cartas de amor, se há amor, Têm de ser Ridículas. Mas, afinal, Só as criaturas que nunca escreveram Cartas de amor É que são Ridículas. Quem me dera no tempo em que escrevia Sem dar por isso Cartas de amor Ridículas. A verdade é que hoje As minhas memórias Dessas cartas de amor É que são Ridículas. (Todas as palavras esdrúxulas, Como os sentimentos esdrúxulos, São naturalmente Ridículas.)

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço. A subtileza das sensações inúteis, As paixões violentas por coisa nenhuma, Os amores intensos por o suposto alguém. Essas coisas todas - Essas e o que faz falta nelas eternamente -; Tudo isso faz um cansaço, Este cansaço, Cansaço. Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada - Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser... E o resultado? Para eles a vida vivida ou sonhada, Para eles o sonho sonhado ou vivido, Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto... Para mim só um grande, um profundo, E, ah com que felicidade infecundo, cansaço, Um supremíssimo cansaço. Íssimo, íssimo. íssimo, Cansaço... Álvar...

Origem dos sonhos esquecidos

Entre a bicicleta e a laranja vai a distância de uma camisa branca Entre o pássaro e a bandeira vai a distância dum relógio solar Entre a janela e o canto do lobo vai a distância dum lago desesperado Entre mim e a bola de bilhar vai a distância dum sexo fulgurante Qualquer pedaço de floresta ou tempestade pode ser a distância entre os teus braços fechados em si mesmos e a noite encontrada para além do grito das panteras qualquer grito de pantera pode ser a distância entre os teus passos e o caminho em que eles se desfazem lentamente Qualquer caminho pode ser a distância entre tu e eu Qualquer distância entre tu e eu é a única e magnífica existência do nosso amor que se devora sorrindo Mário-Henrique Leiria Antologia da Poesia Surrealista Portuguesa Assírio & Alvim 1998

Perfilados de medo

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Perfilados de medo, agradecemos o medo que nos salva da loucura. Decisão e coragem valem menos a vida sem viver é mais segura. Aventureiros já sem aventura, perfilados de medo combatemos irónicos fantasmas à procura do que não fomos, do que não seremos. Perfilados de medo, sem mais voz, o coração nos dentes oprimido, os loucos, os fantasmas somos nós. Rebanho pelo medo perseguido, já vivemos tão juntos e tão sós que da vida perdemos o sentido… ALEXANDRE O’NEILL   (1924-1986)

Ode Triunfal

"(...) Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo! Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento A todos os perfumes de óleos e calores e carvões Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável! (...)" Álvaro de Campos Londres, 1914 - Junho.

Epitaphio de Bartholomeu Dias

Jaz aqui, na pequena praia extrema O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro, O mar é o mesmo: já ninguem o tema! Atlas, mostra alto o mundo no seu hombro. Fernando Pessoa (Ver aqui )

Poesia...I

Rifão Quotidiano Uma nêspera estava na cama deitada muito calada a ver o que acontecia chegou a Velha e disse olha uma nêspera e zás comeu-a é o que acontece às nêsperas que ficam deitadas caladas a esperar o que acontece Mário-Henrique Leiria

Morreu Matilde Rosa Araújo

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Matilde Rosa Araújo «Vinte meninas, não mais, Eu via ali no beiral: Tinham cabecinha preta E branquinho o avental. Vinte meninas, não mais, Eu via naquele muro: Tinham cabecinha preta, Vestidinho azul-escuro. Vinte meninas, não mais, No alto da ramaria: Tinham cabecinha preta, Peúga de fantasia. Vinte meninas, não mais, Na torre acima de tudo: Tinham cabecinha preta E capinha de veludo. As minhas vinte meninas, Capinhas dizendo adeus, Chegaram na Primavera E acenaram lá dos céus. (…)» “Balada das vinte meninas friorentas” in O livro da Tila

Música, músicas...

Construção Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido Subiu a construção como se fosse máquina Ergueu no patamar quatro paredes sólidas Tijolo com tijolo num desenho mágico Seus olhos embotados de cimento e lágrima Sentou pra descansar como se fosse sábado Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago Dançou e gargalhou como se ouvisse música E tropeçou no céu como se fosse um bêbado(...) Chico Buarque de Holanda