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Crónica de um sábado

Levantar às quatro da madrugada foi como se uma pedrada na cabeça me tivesse feito o mesmo efeito que um submarino quando se afunda (no pressuposto de que sei do que estou a falar, o que não é verdade). O calor da noite pressagiava a camisa que eu iria vestir porque ia para um país frio. Ia porque não fui, já cá estou. Viajar sozinho tem algumas vantagens e uma delas é não termos perto de nós quem nos observe, nos ajude, nos ampare e nos proteja. Somos muito mais livres. E muito mais tolos. Check-in rápido, espera curta, avião quase no ar. As hospedeiras da tarde, por oposição às da manhã, são à vontade mães delas. Nunca vi assistentes de bordo tão enrugadas, com tantos sulcos na pele do maxilar superior. E já agora no revestimento do pescoço e nos inevitáveis pés de galinha. O Reino Unido está mesmo pelas ruas da amargura e não me admirava nada que nos tempos mais próximos a idade da reforma para as hospedeiras britânicas fosse os setenta e cinco anos. Mas falando ainda nas qu...

Café

"Uma está vestida com o esmero exagerado das mulheres quarentonas que vivem sozinhas, por vontade própria ou por fuga alheia. Os lábios estão carregados de roxo intenso. A boca torna-se imensa, muito maior do que alguma vez o foi. As sobrancelhas, dois arqueados e delicados traços finos, contrastam abertamente com a boca quase feroz. O nariz, pequeno, completa a face. Tem um olhar penetrante."Meu, aqui .

Café

"Abre o livro e olha para a marca que fez no canto inferior direito. Faz sempre marcas no canto inferior direito. Sempre viu marcas de paragens de leitura no canto superior direito. Deve ser por isso que marca as paragens dos livros que está a ler dessa maneira. Sente-se bem, dormiu bem, gosta de si."´ aqui

Na pirâmide de Kéops

Via-o frequentemente. Não vos direi que, eu mesmo, não ficasse surpreendido com essa meticulosidade. As nossas conversas, os nossos silêncios, as nossas perturbações, as nossas reflexões, a nossa felicidade, misturavam-se numa ordem cíclica, metódica mas inesperada. Porque é preciso dizer que nunca sabíamos quando seria o encontro seguinte. A imprevisibilidade era a lei e a natureza da nossa relação. Relação que era, apesar de tudo, imemorial. Eu explico-me. O meu amigo, acho que o posso denominar assim, não era como os outros. Não digo isto pelo sentimento pedante que poderia ter por esta originalidade. Digo-o porque nunca o compreendi. E só achamos normal o que conhecemos, ou julgamos conhecer. Ele gostava de metamorfosear-se. A magia imanente do carnavale veneziano estava-lhe no sangue, o seu rosto e o seu corpo corriam em mutação permanente. E, asseguro-vos, que isso me afectava profundamente. Mas uma espécie de louca atração impelia-me para a sua companhia. Inexorável e since...

Trápio

Não se assustem. Sou eu, o cão. Melhor, um dos cães. Acontece que sou o único que escreve. Todos os outros são, ou eram, só os outros cães. Nenhum deles escreve, nem sequer desenha ou pinta. Está também excluída a possibilidade de dançar, ou ainda mais inverosímel, de pensar. continua aqui

Café

Calmamente retira o cigarro do maço, acende-o e senta-se. A esplanada, àquela hora, está vazia. O silêncio agrada-lhe. Muitas vezes sentiu a necessidade daquele silêncio. Por vezes é tão difícil de encontrar que um raio de desespero a fere. Agora não. Abre o livro e olha para a marca que fez no canto inferior direito. Faz sempre marcas no canto inferior direito. Sempre viu marcas de paragens de leitura no canto superior direito. Deve ser por isso que marca as paragens dos livros que está a ler dessa maneira. Sente-se bem, dormiu bem, gosta de si. Relê meia página anterior perto do local mais aproximado que se lembra da véspera. Continua aqui .

Que ter vão era

Há muito tempo que morri, como não sei, foi antes de ter nascido, agora como, como, não sei. Acho que nasci quando adormeci da morte em que morava, bem aconchegado no calor da água, vivia nessa altura de sons e de memórias que me lançavam pelo vento fora sem rumo, mas feliz. Viajava imenso sem saber por onde ia, ou para onde ia, que importava o comboio que nos levava se nos levava, há quem não viva porque medo tem, que medo ter da alegria, e do nada, o medo, que grande a invenção dos medos, a invenção dos medrosos, a única, a fútil, a minúscula invenção dos medrosos porque justificava a existência, ou a falência, dos corajosos porque lhes dava substância e fogo, sem se ver, mas quem precisava deles, de medrosos e corajosos, só se precisava ser, mais nada, ser e mais nada, nasci então quando morri, continua aqui

Trápio

A própria mãe achava o nome horroroso e, quando lhe perguntavam por que é que ela o tinha posto, inflamava-se como um polvo que está prestes a urinar o seu saco de tinta e gritava, sim, gritava, que tinha sido aquele velhaco que tinha conhecido na festa da aldeia e que lhe tinha prometido a lua, para logo ali, e outros planetas para depois, quando a vida lhes corresse melhor, mas que no final da noite tinha desaparecido para nunca mais aparecer. ( antes e depois )

O riso dos risos

I No chão três revistas abertas, um copo vazio, sujo, uma camisola verde com colo em v, enrodilhada. Junto à janela, fechada, encavalitada em dez centímetros de rodapé, um saco de mulher, esventrado, mudo. Uma luz, frouxa, de um candeeiro antigo, acesa, inútil. Três ... Continua aqui

O vento

Eu gosto muito do vento. Ou de vento, como preferirem. A vaca é um animal doméstico. Ela dá-nos leite, carne e couro. A galinha, para além de uma estupidez ancestral, é um animal doméstico que nos dá ovos e carne. Ora o problema é que o vento não é um animal doméstico. O vento não pertence a ninguém, o que o torna extremamente perigoso. O vento não dá para ser domesticado. O vento pode é ser roubado. É o que tem acontecido com aquelas enorme hélices de helicópteros mancos que pupulam por tudo quanto é sítio. Mas roubado não é o mesmo que domesticado. É manietado nos seus direitos. Não sei se o vento se queixa mas se fosse eu não gostava de ver aqueles monstros brancos nos montes e montinhos do meu país. Parece que são úteis e nos fornecem energia eléctrica. Aí está: o vento não é doméstico mas já arranjaram maneira de ele ser um pouco como a vaca e a galinha. Mas o vento está-se nas tintas para isso porque o vento é livre. Roubem-no um bocadinho que ele rala-se bem com isso. ...